Uma vida de espera e de páginas em branco

Quando os dias de um homem se tornam um fardo, a sorte é a sua única esperança.

Com o coração aos galopes, sob o olhar de reprovação dos meus avós, eu ouvia a voz do meu pai gritar meu nome no diminutivo. Ao menor consentimento, eu corria para a porta de casa vestida como as personagens dos meus livros de história. Com o cabelo cheio de laços e os olhos transbordando de emoção, eu contemplava à distância o sorriso do meu pai. Da calçada, ele arremessava o embrulho de “papel de bodega” que atravessava o jardim rodopiando, até estourar no piso da varanda, pipocando um punhado de balas de mel. Eu arrastava meus joelhos pelo chão encerado, resgatando uma a uma para a saia do meu vestido bordado.

Sentia vontade de descer os degraus correndo, escalar as grades do portão com os meus pezinhos e me pendurar em seu pescoço, num abraço infinito. Mas sentia vergonha de demonstrar-lhe afeto sob a vigília dos meus avós. E, assim, reagia com um aceno acanhado de despedida, já escapulindo para dentro de casa, antes de receber o beijo que ele soltava com as mãos.

Aos oito anos, eu era a mais velha da prole de quatro filhas e assistia ao processo delicado de uma separação litigiosa. Meu pai era alcoólatra, numa época em que o alcoolismo estava longe de ser reconhecido como uma doença crônica. O álcool lhe furtou a dignidade, mas não antes de lhe tirar a mulher, as filhas e o emprego. Sem esperanças de reaver o lar, regressou à terra natal, de onde havia saído há mais de uma década e para onde jamais cogitou voltar. Aos trinta e três anos, a sentença: estava condenado à solidão pelos próximos, quase, quarenta anos.

Quando eu já era uma mocinha, o carteiro nos trouxe notícias suas. Nossos nomes separados por vírgulas, na ordem da mais velha à caçula, faziam a introdução. A carta expressava seu amor e saudade, e relatava o ultimato dos médicos para a possibilidade de cura de sua depressão: o reencontro com as filhas.

Um mês depois, viajamos para a fazenda. Eu estava com quinze anos e, antes de minhas irmãs, o reconheci à distância pela silhueta de seu corpo sob o céu estrelado daquela noite. Foi um reencontro emocionante. Após meia hora de conversa, ele abriu a carteira e mostrou a nossa fotografia, tão amarelada quanto o meu sorriso apertado pela falta de um dente de leite. Espelhando, uma foto de busto da nossa mãe, com a sua expressão meiga. O passado feliz, congelado naquele pedaço de papel velho.

Nos anos seguintes, passamos as nossas férias escolares na fazenda, com o nosso pai. Depois de adultas, nossas idas tornaram-se menos frequentes, e encontrávamos um homem mais velho que a sua idade cronológica, como se o tempo lhe pesasse em dobro. A cada partida nossa, a tristeza do meu pai foi dando lugar à resignação, e sua vida passou a se sustentar na esperança do próximo encontro.

Envolvidas com deveres domésticos e profissionais, o tempo entre as nossas visitas tornou-se uma grande lacuna. E assim, meu pai passou a vida esperando, contentando-se com as centelhas de felicidade que a nossa presença lhe proporcionava por breves dias, cada vez mais raros.

Até que, num pestanejar, se foram quatro anos sem nenhuma visita. Durante um café, numa alegre tarde de sábado, um assunto caiu à mesa: o nosso pai. Num ímpeto, veio a consciência de que estávamos roubando-lhe o direito de ser pai, o que era a sua única motivação. Tão ocupadas com as nossas próprias vidas, não vimos o tempo passar. Como quando se esquece uma panela no fogo, fomos arrebatadas por uma sensação de urgência e, naquele instante, combinamos uma visita ao nosso pai.

Era a Páscoa de 2011. Na alvorada, eu, minha mãe e irmãs, seguimos rumo à fazenda Egito, no interior do Ceará. A tarde caía quando atingimos o cume da estradinha de barro, avistando o antigo casarão lá na baixada. Ao barulho dos motores dos carros, os moradores do povoado se enfileiravam na frente de seus casebres, curiosos.

Encontramos nosso pai abatido, barba crescida, sentadinho no alpendre. Ao nos ver, ensaiou um sorriso confuso, no consolo de mais um encontro, ínfimo, para uma vida inteira de solidão. Excluso, sem nenhuma motivação afetiva, a vida perdera o sentido. Quando os dias de um homem se tornam um fardo, a sorte deve ser a sua única esperança.

Passados alguns minutos de prosa, comovidas, conversamos sobre levar o nosso pai de volta ao nosso convívio. “Filhas, vamos organizar um cantinho pra ele lá em casa!” disse a nossa mãe, com o seu coração sem tamanho. Assim, nos entreolhamos admiradas e num abraço emocionado, comemoramos aquela decisão que mudaria completamente o destino do nosso pai.

Segurando-o carinhosamente pelos ombros, perguntei ao meu pai se ele gostaria de voltar conosco. Atônito, ele me lançou um olhar incrédulo e gesticulou um sim mudo. O destino havia cravado na vida do meu pai, um tempo de páginas em branco, sem família, sem amor e sem história. Mas ali se encerrava um longo ciclo de espera.

Na manhã seguinte, com meia dúzia de roupas na mala, meu pai se despediu dos irmãos como se fosse apenas para o seu quarto, o cárcere onde cumpriu a sua “pena” de trinta e sete anos. Depois de algumas horas de estrada, contei-lhe que ele não estava indo para passar uns dias. Entusiástica, disse-lhe que era PARA SEMPRE! Ele repetiu pensativo, soletrando… Para sempre. Perguntei-lhe se sentiria saudades da fazenda. Ele tirou o boné, passou a mão na cabeça, suspirou, e disse com os olhos fechados “um alívio”.

Hoje, meu pai vive na companhia da mulher da sua vida. E embora minha mãe o acolhera como um irmão, espirituosa, chama-o de “meu marido”, só pra lhe provocar um sorriso. O uso contínuo de antidepressivos o tornaram um homem apático e dependente. Da visão, só lhe resta um resquício. Mas quando me aproximo de sua cama e digo “papai, papai! Sabe quem está falando?”, seus olhos brilham e ele sorri, falando o meu nome no diminutivo, como nos velhos tempos. Mas agora eu posso chamá-lo de “meu pai lindo” e dizer o quanto o amo, enquanto ele beija a minha mão, feliz.

Foto: https://br.pinterest.com/pin/70509550394525471/

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